
Aqui no número 27 da Rua do Capelão, no coração da Mouraria, a voz que moldou o fado para sempre silenciou em 30 de novembro de 1846. Este modesto edifício, agora assinalado como Casa da Severa, testemunhou os momentos finais de Maria Severa Onofriana, a mulher que transformou um estilo musical das ruas na forma de arte mais expressiva de Portugal.
Maria Severa nasceu em 1820 na pobreza, filha de uma taberneira na Mouraria. Tornou se a primeira fadista a alcançar fama generalizada, conhecida não apenas pela sua voz comovente mas também pela sua excecional habilidade na guitarra. O que a tornou revolucionária foi como atravessou barreiras de classe rígidas: uma mulher dos bordéis que atuava para condes e nobreza, cativando audiências através de divisões sociais.
O seu assento de óbito revela que morreu de apoplexia com apenas 26 anos, sem receber os sacramentos. Apesar da sua fama em vida, foi enterrada numa vala comum no Cemitério do Alto de São João, alegadamente sem caixão conforme desejara. Não sobrevivem gravações da sua voz, mas a sua influência no fado foi tão profunda que se tornou a sua primeira lenda. O edifício onde passou os seus últimos dias permanece como testemunho da mulher que deu ao fado a sua alma.
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